Um sistema de retenção de queda só cumpre sua função se conseguir parar o trabalhador antes que ele atinja o solo, uma estrutura ou outro obstáculo. O espaço necessário para isso é a Zona Livre de Queda, ou ZLQ — um dos parâmetros mais importantes, e mais negligenciados, do planejamento do trabalho em altura.

A definição da NR-35

Com a redação dada pela Portaria MTE nº 1.680/2025, o glossário da NR-35 define a ZLQ como:

“O espaço mínimo abaixo do ponto de ancoragem no caso do talabarte de segurança ou espaço mínimo abaixo dos pés do usuário no caso dos dispositivos trava-quedas, com o objetivo de evitar choques com a estrutura, obstáculo mais próximo ou com o solo depois de uma queda.”

Note que a referência muda conforme o equipamento: com talabarte, a ZLQ é medida a partir do ponto de ancoragem; com trava-quedas, a partir dos pés do usuário.

Onde a ZLQ aparece na norma

  • a análise de risco do SPIQ deve considerar a zona livre de queda (item 35.6.11, alínea e);
  • talabarte e trava-quedas devem ser posicionados de forma que, em caso de queda, o trabalhador não colida com estrutura inferior (item 35.6.11.1, alínea b);
  • o projeto do sistema de ancoragem deve determinar a zona livre de queda necessária (Anexo II, item 5.1.1, alínea c).

Como estimar a ZLQ com talabarte e absorvedor

Para um talabarte de segurança com absorvedor de energia, a ZLQ abaixo do ponto de ancoragem é usualmente estimada pela soma de quatro parcelas:

  • comprimento do talabarte;
  • abertura máxima do absorvedor de energia, informada pelo fabricante;
  • distância entre o elemento de engate do cinturão e os pés do trabalhador, usualmente adotada como 1,5 m;
  • margem de segurança, usualmente adotada como no mínimo 1,0 m.

Exemplo com valores ilustrativos:

ParcelaValor
Comprimento do talabarte1,5 m
Abertura do absorvedor (dado do fabricante)1,2 m
Elemento de engate até os pés1,5 m
Margem de segurança1,0 m
ZLQ abaixo do ponto de ancoragem5,2 m

Nesse exemplo, se o ponto de ancoragem estiver a 4 m do piso, o sistema não é adequado: em uma queda, o trabalhador atingiria o solo antes de a retenção se completar. Para trava-quedas retráteis ou deslizantes, a ZLQ é medida a partir dos pés e depende da distância de travamento e das demais condições indicadas no manual do fabricante.

O que aumenta a ZLQ

  • Ancoragem baixa: quanto mais baixo o ponto de ancoragem em relação ao elemento de engate, maiores a distância de queda livre, o fator de queda e a energia que o absorvedor precisa dissipar — e maior o espaço necessário abaixo do piso de trabalho. Com ancoragem na altura dos pés, a queda livre chega ao dobro do comprimento do talabarte.
  • Flecha da linha de vida: em linhas horizontais flexíveis, a deformação do cabo durante a retenção se soma à ZLQ. Veja Como funciona uma linha de vida?
  • Efeito pêndulo: quando o trabalhador se afasta lateralmente do ponto de ancoragem, a queda gera um movimento pendular, com risco de impacto contra estruturas laterais.
  • Mais de um trabalhador na mesma linha: impactos simultâneos ou sequenciais alteram as forças e as deformações do sistema.

Quando não há ZLQ suficiente

Se o espaço disponível for menor que a ZLQ calculada, o sistema precisa ser revisto. Entre as alternativas possíveis estão: elevar o ponto de ancoragem; reduzir o comprimento do elemento de ligação; adotar trava-quedas retrátil (ABNT NBR 14628:2020), que em geral exige menor ZLQ, conforme dados do fabricante; ou substituir a retenção por um sistema de restrição de movimentação, que limita o deslocamento de modo que o trabalhador não fique exposto ao risco de queda. Sempre que possível, a proteção coletiva deve ter prioridade sobre a individual (item 35.6.3).

A escolha do elemento de ligação influencia diretamente a ZLQ. Saiba mais em Quando utilizar talabarte com absorvedor de energia?

TECISA Soluções Ágeis

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Fontes

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